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DANS PARIS

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Dia 1

4.5.09 :: 16h47

Cumbica – Sala VIP Lufthansa 

 

Fiz minha última tentativa de conexão. São três redes disponíveis e nenhuma funciona. Sobram frutas brasileiras, guaraná e pão de queijo, mas uma conexão básica e simples à internet simplesmente não existe na sala VIP.

Os suecos –ao menos se parecem e falam como suecos—ao meu lado esquerdo são gordos, os três. E vermelhos. A mulher come uma fatia de manga sobre um pratinho de sobremesa, em silêncio. O careca ao meu lado toma vinho branco intercalado com um copo d’água. O terceiro, o mais jovem dos três, lê jornal. O mais gorducho avermelhado na poltrona ao meu lado conseguiu conexão em seu blackberry. O que me faz pensar que o problema talvez seja eu, que não sei configurar direito essa joça para situações assim, que escapam à rotina. Ou talvez eu não saiba ME configurar para situações assim, fora da rotina, em que meu nível de controle fica próximo do zero. Vai ser divertido me ver tentando.

 

 

À minha frente, depois da divisão de vidro com motivos ondulados está o meu grupo. Consigo ver a perua loira, a mulher da Vogue de suéter azul e cabelos ruivos bem cortados, um homem de costas, de casaco marrom, e o Nirlando Baião, o único de quem sei o nome porque o conheço há mais de 15 anos. Não contei isso para ninguém, e também não sei porquê. O Nirlando é pai da Julia, minha amiga gótica da adolescência, com quem eu dançava EBM no Retrô e tomava Coca-Cola comendo Sonho de Valsa e fumando Malrboros vermelhos na escadaria do Teatro Municipal. Ele era editor da Playboy na época, e eu nem sonhava em ser jornalista. Uma vez ele nos convidou pra assistir a Jules et Jim na sala de TV da casa dele, mas eu dormi no sofá. Queria terminar esse filme um dia.

Ele parece bem mais velho hoje, mas não muito, e tem o mesmo cabelo meio curto, meio comprido, meio bagunçado de quem quer parecer mais jovem e algo moderno. Olho para frente e não tenho a menor vontade de participar. Se conseguir manter esse isolamento durante o tempo que vou passar com eles, ótimo. Fico em dúvida se deveria contar ao Nirlando sobre o meu um grau de separação em relação a ele. Talvez ele se sentisse constrangido em saber que no grupo de jornalistas do qual ele faz parte há uma garota que foi amiga da filha dele. Isso o faria bem mais velho. E eu a mais pirralha.

Chi, você tem razão. Ele parece mesmo o Gérard Depardieu.

 

Eu comeria umas frutas brasileiras agora, mas pra isso preciso ficar em frente à mesa do meu grupo feliz. Eles riem alto, conversam em pé. Que preguiça. Ainda preciso investigar, talvez na terapia, por que tenho tanta preguiça de fazer essa social. De jogar conversa fora, bater papo, ser agradável inventando assuntos descomprimissados e desinteressantes que permitam ao meu interlocutor mostrar sua desenvoltura falando do temporal que parou o trânsito ou do restaurante que ele descobriu ontem à noite. Esses exemplos são ruins porque são minimamente interessantes. O problema é que pra mim os assuntos com desconhecidos são sempre falsos demais, chatos demais, superficiais demais e eu não tenho nenhuma habilidade de improviso. Admiro os que têm –admiro, não invejo.

A Tereza, por exemplo. Ela tem sempre uma sacada divertida pra trocar com estranhos e por isso conhece tanta gente, porque ela rodopia pelas rodinhas cheia de asuntos curiosos, engraçados e espontâneos. Eu não. Ou acabo falando algo muito pessoal para alguém que nunca vi mais gordo ou solto um comentário sincero demais sobre a pessoa e atropelo de uma vez a fronteira da civilidade. Como da vez em que disse para uma grávida que deveria existir um controle governamental dos adultos que pretendem ter filhos para identificar se aquelas pessoas têm de fato condições psíquicas para criar uma criança sem foder sua pequena cabeça. As mulheres todas da sala me olharam feio na hora. Eu pedi licença e fui buscar um copo d’água na cozinha. Nunca mais a grávida me deu trela. E eu nem soube se o bebê que nasceu era menino ou menina.

….

  

Acho que vou comer mais pães de queijo. Eles ficam mais distantes do grupo feliz do que as frutas brasileiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Casal 13

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A XLR8R de agosto sanou a dúvida: sim, eles são um casal, como eu suspeitava. Georgia Anne Muldrow, a mulher mais interessante do subterrâneo americano hoje, e o doidão querido Dudley Perkins ex-Declaime foram feitos um pro outro. A coisa mais recente que fizeram juntos foi um disco chamado “Beautiful Mindz”, em que cantam/rimam sobre os beats do DJ 2Tall, um inglês que já ganhou o DMC. Sem mais delongas descritivas, se vc gosta de descobrir gente que experimenta, vai atrás que vale. É psico, melancólico e delicado, pra mim.

Na entrevista, eles contam que entraram numa piração de “ficar saudáveis fisicamente para que a criação artística seja mais pura”, Dudley diz que “Deus se comunica através dele” e ambos acham que sua missão é promover “uma revolução através do amor” e outras insanidades fofas do tipo. Dudley aproveita pra dar uma alfinetada de leve na Stones Throw e diz que seu último disco, o adorável (sorry mas adoro palavras velhas como ‘adorável’) “Expressions”, foi vendido pela gravadora para o público errado, “uma molecada meio grunge” (leia-se brancos), que nunca iria gostar do som que ele faz, e “que os jovens negros, que ainda apreciam funk e psicodelia” deveriam ter sido o alvo. É isso, kill your employer, como diz o Busdriver.

A parte boa do nhenhenhém é que a doideira conjugal rendeu disco novo, não-lançado pela Stones Throw. “The Message Uni Versa” (pela Look Records) é o nome do troço e a julgar pela capa (o que na vida não se julga pela capa?) é 13 até o osso.

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coma induzido

este lugar está prestes a ser abandonado por falta de uso.

tenho dito.

Sempre tem alguma fofoquinha

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1. Refinado rapper

Não fosse o híbrido em voga “produtor-MC”, Kanye West teria sido designer de interiores.  ”Era meu sonho”, ele disse.

Por essa razão a revista americana “Interior Design” publicou perfil e entrevista de Kanye na última edição, na qual ele faz a confissão acima. Ele abriu a casa no melhor estilo “Caras” de ser celeb e mostrou o banheiro com aquário gigante, os objetos assinados, a cama desenhada por não sei quem, a coleção de arte –ele também é colecionador de pop art.

!

Natural. Quem vende um milhão de cópias na estréia do disco (”Graduation”), desbanca o cinquenta centavos nas cifras e recebe os louros do mercado pelo título de disco mais bem-sucedido do ano de fato PRECISA -perdão pelo palavreado-, cagar olhando peixinhos.

                                                                      ****

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2.  Queimando os parceiros

O Hi-Tek, tadinho, andou espalhando que um ”Reflection Eternal parte 2″ (primeira e excelente parceria dos dois, de 2000) tava a caminho. Mas o Talib-neo-amigo-do-Timberlake tratou de desmentir a história rapidinho. “Melhor ninguém esperar por isso”.  Curto, grosso. 

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3. Sonho americano

Chora: Ghostface Killah, Brother Ali e Rakim Tour. A santa trindade entra em turnê em 29 de outubro para dez shows.

Em dez estados americanos.

Para costurar

para costurar é preciso tempo. não é tarefa que se faça assim, de qualquer jeito.

para costurar é preciso, antes de tudo, ouvir. mas não simplesmente ouvir assim, de qualquer jeito.

tenho os ouvidos ocupados. e os dias, e as horas, e as mãos. e a mente cheia.

para costurar é preciso leveza.

e me falta tempo para levitar.

[… need some time to easy my mind]

Reconstruindo a velha escola

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Deu no New York Times: um aficionado por hip-hop não-identificado, vasculhando num depósito em New Jersey, encontrou velhos discos que continham apenas a inscrição “Fab Five Freddy”. Agulha em ação e… surpresa: eram gravações antigas, de 1988, de monolitos como Big Daddy Kane e Biz Markie.

Ou pelo menos deveriam ser. Não demorou e blogueiros do ramo começaram a questionar a autenticidade do negócio. Como é que adolescentes poderiam teriam aquela voz rouca e o fôlego ruim? E como não apareceu ninguém pra reclamar a autoria das excelentes (segundo o NYT) produções do disco?

Verdadeiro ou falso, o que chama a atenção na história, como observa o repórter, é todo esse interesse em torno da old school. Ele cita outras duas histórias envolvendo polêmicas sobre gravações supostamente esquecidas resgatadas do passado. 

Esse barulho (e o fato de o NYT ter dado um bom espaço para um boato do rap _afinal, como bem diz o Shaw, no mundo do rap sempre tem alguma fofoquinha_) é um pouco esperançoso imaginar que um bando de gente talvez sinta a mesma saudade da originalidade, da ética, da coletividade e do amor à música da velha escola. Tavez existam mais “caipiras” interessados nessas coisas por aí do que se imagina.

Procurado pela reportagem, Fab Five Freddy disse que o dono do tal depósito (ou armazém, ou algo do tipo) era um amigo dele que era engenheiro de áudio e traficante de maconha. E que, por causa da natureza dos negócios do mano, apesar de fazer muito tempo, ele não podia revelar muita coisa sobre o assunto. Top Shelf, supostamente o estúdio em Manhattan onde os sons foram gravados, também é desconhecido por caras que estão na fita. Special Ed, que aparece no disco com a faixa “This Mic”, disse que não tem idéia de como essa música foi parar lá. “Nunca ouvi falar desse estúdio”, disse.

É o que eu sempre digo: viva a cascata.

A fuga dos stickers

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Eu ainda era repórter em 2004 quando pequenos pedaços de papel coloridos colados em placas, postes, lixeiras e outros itens do “mobiliário urbano” interromperam o meu caminho. Eu precisava parar tudo e descobrir que raios eram aqueles desenhos sem assinatura (ao contrário do que acontece com a maior parte dos grafites). A pausa para a pergunta virou uma reportagem publicada em 10 de outubro daquele ano.

Três anos depois, parei no meio do caminho pelo mesmo assunto, mas não pela mesma razão. Desta vez a pergunta foi: “Onde estão os stickers?” Desde a semana passada procuro os adesivos e pôsteres que me surpreendiam todos os dias. Não encontro mais.

Fico me perguntando o que terá acontecido. Era modismo, e portanto tinha data de validade? As pessoas que colavam arrumaram emprego em agências de publicidade e de design e não têm mais tempo para a rua? A prefeitura incumbiu uma equipe de “limpeza”, assim como fez com os grafites, de exterminar os adesivos coloridos? Os “coladores” fugiram para a França? [Em busca de respostas, fui vasculhar o fotolog do SHN e encontrei as caveirinhas dando sopa em Marseille].

Lamento não ter documentado os meus preferidos, como fiz em Barcelona (fotos). Dos stickers paulistanos, só me restou a memória.

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Preparações (de viagem)

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Passarinho me contou que o Prefuse 73, aka Guillermo Scott Herren, esqueceu sua bagagem de mão no avião que o trouxe ao Brasil. Xi, laiá! Dentro da mochila perdida estavam cabos, um teclado e outras coisas. Mas, a julgar pela calma dos pássaros envolvidos no caso, não há de ser nada grave e o show no Pompéia daqui a duas horas tá garantido.

I refuse to lose

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Forte concorrente na categoria melhor título de disco de todos os tempos: “How You Sell Soul to a Soulless People Who Sold Their Souls?”, o novo do Public Enemy.  

Pare, agora!

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Caro senhor Tímpano,

Esse seu novo disco, “Eardrum”, é esquizofrênico, não é não? Depois de ouvir pela 18º vez eu ainda não consegui entender como é que o senhor conseguiu convidar gente tão diferente (e díspare) para participar da mesma empreitada. Botou lá: Just Blaze, KRS One. Justin Timberlake, Madlib. will.i.am, Pete Rock. Jean Grae, Norah Jones. Kanye West, Sa-Ra. Fiquei me perguntando o que o senhor estaria tentando dizer com isso.

Claro que a diversidade é uma coisa, assim, supimpa. Misturar, experimentar também. Mas não me parece que esses seus convidados estão aí experimentando alguma coisa com o senhor. Acho que os beats dos neocumpadres Just Blaze e Kanye West pesam bastante na balança comercial, assim como cada minuto do tempo do seu Timberlake na produção ou nas cantorias de refrão (e para o senhor ele fez os dois, hein? Vixe). Assim sendo, me parece que todos vocês ali sabiam muito bem que botões estavam apertando. Idem para a Warner, já que pela primeira vez um disco seu entra na parada da Billboard (e no segundo lugar, hein?).

Como MC, é verdade, o senhor ainda é de uma responsa só –apesar de em alguns momentos eu ter ouvido uma levada ou outra meio parecida com as do seu Kanye, mas acho que era só impressão, não era? Ou convivência.

Agora, onde é que estava com a cabeça, seu Talib, quando deixou o Just Blaze enfiar aquele melamê que chamou de “Hostile Gospel Pt 1”? Ou quando fez aquela canção de novela com a Norah Jones? (“Soon the New Day”). Nhô Kweli, não é possível que o senhor não tenha se sentido estranho ao passar de “Liberation” (aquele excelente disco feito ano passado em parceria virtual com Madlib) para essa experiência… esquizofrênica. Muitas personalidades para um disco só, não?

Talvez a idéia tenha sido aumentar seu peso na balança comercial também. Como se quisesse dizer “Ei, eu posso transitar das ruas ao extremo pop e me manter inteiro”. Mas olha, o senhor vai me desculpar, a intenção pode até ter sido boa, mas esse seu disco simplesmente NÃO É o senhor. Ao menos não o nhô Talib de “Quality” (2002) ou de “Right About Now” (2005, mixtape com o Hi-Tek).

Quando o disco começa, antes da primeira faixa (uma das três boas em 20), vosmecê diz que “não dá para agradar a todo o mundo”. Depois, em “Stay Around”, fica reclamando de como é chato quando as pessoas palpitam demais no seu som (“por que você não rima assim?, assado?, soa mais melódico, mais ‘street’?). Tá certo. “You can’t please everybody.”
Uma amiga minha diria para eu largar a mão de ser chata e que o seu disco é bom, sim. Competente, “bem produzido”. Talvez ela esteja certa.
É por isso que gente como eu hoje é chamada de purista. Mas eu prefiro caipira, seu Talib. Caipira gosta das coisas simples. Prefere essência, sem pirotecnia.

Voltando ao assunto, o senhor não ia conseguir a aprovação de todos mesmo. Mas a ao menos uma criatura o sinhô tinha a obrigação de agradar: o senhor mesmo.
Será que depois de fechar a 20º faixa desse disco tão bem-sucedido o senhor sorriu?

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